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Linguagens · Literatura

Questões de Análise de textos literários no ENEM

112 questões oficiais do ENEM sobre Análise de textos literários, de 2009 a 2025, todas com gabarito e resolução comentada. Dificuldade estimada: 2 fáceis, 82 médias, 28 difíceis.

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5 questões de Análise de textos literários resolvidas

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Questão 1 · ENEM 2025 · Questão 21média

O meu medo é entrar na faculdade e tirar zero eu que nunca fui bom de matemática fraco no inglês eu que nunca gostei de química geografia e português o que é que eu faço agora hein mãe não sei. [...]

O meu medo é a vida piorar e eu não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de ajudante de pedreiro e o pessoal dizer que o governo já fez o que pôde já pôde o que fez já deu a sua cota de participação hein mãe não sei.

O meu medo é que mesmo com diploma debaixo do braço andando por aí desiludido e desempregado o policial me olhe de cara feia e eu acabe fazendo uma burrice sei lá uma besteira será que eu vou ter direito a uma cela especial hein mãe não sei.

FREIRE, M. Contos negreiros. Rio de Janeiro: Record, 2005.

Nesse texto, a reiteração dos medos e das angústias do narrador exprime

  1. A

    inseguranças sobre o futuro familiar.

  2. B

    dilemas resultantes de seu fracasso escolar.

  3. C

    incertezas centradas em sua condição social.

  4. D

    hesitações em relação à sua formação profissional.

  5. E

    preocupações com as políticas públicas assistenciais.

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Gabarito: C

O narrador repete "o meu medo é...": tirar zero na faculdade, não achar emprego, ser tratado como suspeito pela polícia mesmo com diploma. Os medos ligam-se à sua condição social (pobre, negro, periférico) e ao que ela impõe. Alternativa C.

  • A: o foco não é a família.
  • B: o fracasso escolar é só um medo, não o dilema central.
  • D: a formação aparece, mas o texto vai além.
  • E: o governo é citado, mas não é a preocupação principal.

Dica: ao interpretar textos repetitivos, veja o que une todos os trechos.

Questão 2 · ENEM 2024 · Questão 19média

Até ali que sabia das misérias do mundo? Nada. Aquela noite do Castelo, tão simples, tão monótona, fora uma revelação! Era bem certo que a lágrima existia, que irrompiam soluços de peitos oprimidos, que para alguém os dias não tinham cor nem a noite tinha estrelas! Ela, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a saudade do céu, como dizia o dr. Gervásio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.

E aquela mesma mágoa parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se à outra, a Sancha, da sua idade, negra, feia, suja, levada a pontapés, dormindo sem lençóis em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanso nem paga!

Por quê? Que direito teriam uns a todas as primícias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?

ALMEIDA, J. L. A falência. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 28 dez. 2023.

Nesse fragmento do romance de Júlia Lopes de Almeida,

escrito no cenário brasileiro pós-abolição, a narradora

exprime um olhar crítico sobre a

  1. A

    desvalorização da arte produzida por mulheres.

  2. B

    mudança das condições de moradia do povo negro.

  3. C

    ruptura do projeto político de emancipação feminina.

  4. D

    exploração da força de trabalho da população negra.

  5. E

    disputa de poder entre brancos e negros no século XIX.

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Gabarito: D

A personagem, criada em meio ao conforto, descobre o sofrimento ao ver Sancha: uma menina negra, da mesma idade, que dorme em esteira, come em pé e trabalha sem descanso nem pagamento. Ela se pergunta que direito alguns teriam a todos os regalos enquanto outros nem veem a felicidade.

A narradora critica a exploração da força de trabalho da população negra, no cenário pós-abolição. Alternativa D.

A, B e C não aparecem. E fala em disputa de poder, mas o trecho mostra exploração, não disputa.

Dica: em trechos literários, ligue as cenas descritas ao contexto histórico da obra.

Questão 3 · ENEM 2023 · Questão 7difícil

Mais iluminada que outras

Tenho dois seios, estas duas coxas, duas mãos que me são muito úteis, olhos escuros, estas duas sobrancelhas que preencho com maquiagem comprada por dezenove e noventa e orelhas que não aceitam bijuterias. Este corpo é um corpo faminto, dentado, cruel, capaz e violento. Movo os braços e multidões correm desesperadas. Caminho no escuro com o rosto para baixo, pois cada parte isolada de mim tem sua própria vida e não quero domá-las. Animal da caatinga. Forte demais. Engolidora de espadas e espinhos.

Dizem e eu ouvi, mas depois também li, que o estado do Ceará aboliu a escravidão quatro anos antes do restante do país. Todos aqueles corpos que eram trazidos com seus dedos contados, seus calcanhares prontos e seus umbigos em fogo, todos eles foram interrompidos no porto. Um homem — dizem e eu ouvi e depois também li — liderou o levante. E todos esses corpos foram buscar outros incômodos. Foram ser incomodados.

ARRAES, J. Redemoinho em dia quente. São Paulo: Alfaguara, 2019.

Nesse texto, os recursos expressivos usados pela narradora

  1. A

    revelam as marcas da violência de raça e de gênero na construção da identidade.

  2. B

    questionam o pioneirismo do estado do Ceará no enfrentamento à escravidão.

  3. C

    reproduzem padrões estéticos em busca da valorização da autoestima feminina.

  4. D

    sugerem uma atmosfera onírica alinhada ao desejo de resgate da espiritualidade.

  5. E

    mimetizam, na paisagem, os corpos transformados pela violência da escravidão.

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Gabarito: A

A narradora fala do próprio corpo ("faminto, dentado, cruel"), de ser mulher negra nordestina e de uma história de escravidão no Ceará, com a repetição "dizem e eu ouvi, mas depois também li". A linguagem une corpo, raça e gênero para construir identidade marcada pela violência (A).

A B é errada, pois ela não questiona o pioneirismo cearense, apenas o cita. C e D não aparecem. A E diz paisagem, mas o foco é o corpo.

Dica: em textos literários, ligue os recursos (imagens do corpo, repetição) ao tema social.

Questão 4 · ENEM 2022 · Questão 17média

PALAVRA – As gramáticas classificam as palavras em substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção, pronome, numeral, artigo e preposição. Os poetas classificam as palavras pela alma porque gostam de brincar com elas, e para brincar com elas é preciso ter intimidade primeiro. É a alma da palavra que define, explica, ofende ou elogia, se coloca entre o significante e o significado para dizer o que quer, dar sentimento às coisas, fazer sentido. A palavra nuvem chove. A palavra triste chora. A palavra sono dorme. A palavra tempo passa. A palavra fogo queima. A palavra faca corta. A palavra carro corre. A palavra “palavra” diz. O que quer.

E nunca desdiz depois. As palavras têm corpo e alma,

mas são diferentes das pessoas em vários pontos.

As palavras dizem o que querem, está dito, e pronto.

FALCÃO, A. Pequeno dicionário de palavras ao vento. São Paulo: Salamandra, 2013 (adaptado).

Esse texto, que simula um verbete para a palavra

“palavra’’, constitui-se como um poema porque

  1. A

    tematiza o fazer poético, como em “Os poetas classificam as palavras pela alma”.

  2. B

    utiliza o recurso expressivo da metáfora, como em “As palavras têm corpo e alma”.

  3. C

    valoriza a gramática da língua, como em “substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção”.

  4. D

    estabelece comparações, como em “As palavras têm corpo e alma, mas são diferentes das pessoas”.

  5. E

    apresenta informações pertinentes acerca do conceito de “palavra”, como em “As gramáticas classificam as palavras”.

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Gabarito: B

O texto é um "verbete" que vira poema porque usa a linguagem de modo criativo: "A palavra nuvem chove. A palavra triste chora". Dizer que as palavras têm corpo e alma é metáfora.

O recurso expressivo da metáfora faz do texto um poema: B.

A A só cita o assunto, e o tema sozinho não faz um poema. A C e a E são do gênero verbete, e não do poema. A D é tentadora, mas "têm corpo e alma" é metáfora, enquanto a comparação aparece só na parte seguinte.

Dica: o que faz um texto poético é a linguagem figurada e o ritmo.

Questão 5 · ENEM 2020 · Questão 11média

Na sua imaginação perturbada sentia a natureza toda agitando-se para sufocá-la. Aumentavam as sombras. No céu, nuvens colossais e túmidas rolavam para o abismo do horizonte... Na várzea, ao clarão indeciso do crepúsculo, os seres tomavam ares de monstros... As montanhas, subindo ameaçadoras da terra, perfilavam-se tenebrosas... Os caminhos, espreguiçando-se sobre os campos, animavam-se quais serpentes infinitas... As árvores soltas choravam ao vento, como carpideiras fantásticas da natureza morta... Os aflitivos pássaros noturnos gemiam agouros com pios fúnebres. Maria quis fugir, mas os membros cansados não acudiam aos ímpetos do medo e deixavam-na prostrada em uma angústia desesperada.

ARANHA, J. P. G. Canaã. São Paulo: Ática, 1997.

No trecho, o narrador mobiliza recursos de linguagem que geram uma expressividade centrada na percepção da

  1. A

    relação entre a natureza opressiva e o desejo de libertação da personagem.

  2. B

    confluência entre o estado emocional da personagem e a configuração da paisagem.

  3. C

    prevalência do mundo natural em relação à fragilidade humana.

  4. D

    depreciação do sentido da vida diante da consciência da morte iminente.

  5. E

    instabilidade psicológica da personagem face à realidade hostil.

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Gabarito: B

O trecho mostra a natureza ganhando traços monstruosos: sombras, montanhas ameaçadoras, caminhos como serpentes. Tudo é descrito pela 'imaginação perturbada' de Maria, e o medo dela se projeta na paisagem. Há confluência entre o estado emocional da personagem e a paisagem.

Alternativa B.

A fala de desejo de libertação, não explícito. C e E exageram: o foco é o estado psicológico projetado. D não aparece.

Dica: a paisagem em textos românticos costuma espelhar emoções.

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