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Questões de Literatura do ENEM

132 questões oficiais de Literatura do ENEM, de 2009 a 2025, organizadas por assunto e todas com resolução comentada.

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Assuntos de Literatura

Exemplos de questões de Literatura

Questão 1 · ENEM 2025 · Questão 11média

— Vejo, disse ele com algum acanhamento, que o doutor não é nenhum pé-rapado, mas nunca é bom facilitar... Minha filha Nocência fez 18 anos pelo Natal, e é rapariga que pela feição parece moça de cidade, muito ariscazinha de modos, mas bonita e boa deveras... Coitada, foi criada sem mãe, e aqui nestes fundões. [...]

— Ora muito que bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual garrulice, quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de casá-la.

— Ah! é casada? perguntou Cirino.

— Isto é, é e não é. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma labutar no costeio do gado para São Paulo um homem de mãocheia, que talvez o sr. conheça... o Manecão Doca...

— Não, respondeu Cirino abanando a cabeça.

— Pois isso é um homem às direitas, desempenado e trabucador como ele só... fura estes sertões todos e vem tangendo pontes de gado que metem pasmo. Também dizem que tem bichado muito e ajuntado cobre grosso, o que é possível, porque não é gastador nem dado a mulheres. Uma feita que estava aqui de pousada... olhe, mesmo neste lugar onde estava mecê inda agorinha, falei-lhe em casamento... isto é, dei-lhe uns toques... porque os pais devem tomar isso a si para bem de suas famílias; não acha?

— Boa dúvida, aprovou Cirino, dou-lhe toda a razão; era do seu dever.

TAUNAY, A. d’E. Inocência. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 29 fev. 2024.

Nesse trecho, ao se referir à sua filha, o pai de Inocência reproduz os ideais românticos, presentes na

  1. A

    valorização do ambiente rural na formação moral da mulher.

  2. B

    figura decorativa da mulher ante o protagonismo masculino.

  3. C

    equivalência de origem social para a harmonia do casal.

  4. D

    importância do dote como condição para o casamento.

  5. E

    aura de mistério sobre a identidade da jovem.

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Gabarito: B

O pai conta que "tratou logo de casá-la" e já deixou o casamento apalavrado com Manecão Doca, sem consultar a filha. Ela é apenas um objeto de acordos entre homens, sem voz. Isso reproduz o ideal romântico da mulher como figura decorativa, diante do protagonismo masculino. Alternativa B.

  • A: não se trata do ambiente rural.
  • C e D: não se fala de origem social nem de dote.
  • E: a identidade dela é dita abertamente.

Dica: em Inocência (Romantismo sertanejo), a mulher aparece como idealizada e submissa à vontade do pai.

Questão 2 · ENEM 2024 · Questão 19média

Até ali que sabia das misérias do mundo? Nada. Aquela noite do Castelo, tão simples, tão monótona, fora uma revelação! Era bem certo que a lágrima existia, que irrompiam soluços de peitos oprimidos, que para alguém os dias não tinham cor nem a noite tinha estrelas! Ela, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a saudade do céu, como dizia o dr. Gervásio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.

E aquela mesma mágoa parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se à outra, a Sancha, da sua idade, negra, feia, suja, levada a pontapés, dormindo sem lençóis em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanso nem paga!

Por quê? Que direito teriam uns a todas as primícias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?

ALMEIDA, J. L. A falência. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 28 dez. 2023.

Nesse fragmento do romance de Júlia Lopes de Almeida,

escrito no cenário brasileiro pós-abolição, a narradora

exprime um olhar crítico sobre a

  1. A

    desvalorização da arte produzida por mulheres.

  2. B

    mudança das condições de moradia do povo negro.

  3. C

    ruptura do projeto político de emancipação feminina.

  4. D

    exploração da força de trabalho da população negra.

  5. E

    disputa de poder entre brancos e negros no século XIX.

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Gabarito: D

A personagem, criada em meio ao conforto, descobre o sofrimento ao ver Sancha: uma menina negra, da mesma idade, que dorme em esteira, come em pé e trabalha sem descanso nem pagamento. Ela se pergunta que direito alguns teriam a todos os regalos enquanto outros nem veem a felicidade.

A narradora critica a exploração da força de trabalho da população negra, no cenário pós-abolição. Alternativa D.

A, B e C não aparecem. E fala em disputa de poder, mas o trecho mostra exploração, não disputa.

Dica: em trechos literários, ligue as cenas descritas ao contexto histórico da obra.

Questão 3 · ENEM 2023 · Questão 7difícil

Mais iluminada que outras

Tenho dois seios, estas duas coxas, duas mãos que me são muito úteis, olhos escuros, estas duas sobrancelhas que preencho com maquiagem comprada por dezenove e noventa e orelhas que não aceitam bijuterias. Este corpo é um corpo faminto, dentado, cruel, capaz e violento. Movo os braços e multidões correm desesperadas. Caminho no escuro com o rosto para baixo, pois cada parte isolada de mim tem sua própria vida e não quero domá-las. Animal da caatinga. Forte demais. Engolidora de espadas e espinhos.

Dizem e eu ouvi, mas depois também li, que o estado do Ceará aboliu a escravidão quatro anos antes do restante do país. Todos aqueles corpos que eram trazidos com seus dedos contados, seus calcanhares prontos e seus umbigos em fogo, todos eles foram interrompidos no porto. Um homem — dizem e eu ouvi e depois também li — liderou o levante. E todos esses corpos foram buscar outros incômodos. Foram ser incomodados.

ARRAES, J. Redemoinho em dia quente. São Paulo: Alfaguara, 2019.

Nesse texto, os recursos expressivos usados pela narradora

  1. A

    revelam as marcas da violência de raça e de gênero na construção da identidade.

  2. B

    questionam o pioneirismo do estado do Ceará no enfrentamento à escravidão.

  3. C

    reproduzem padrões estéticos em busca da valorização da autoestima feminina.

  4. D

    sugerem uma atmosfera onírica alinhada ao desejo de resgate da espiritualidade.

  5. E

    mimetizam, na paisagem, os corpos transformados pela violência da escravidão.

Ver gabarito e resolução

Gabarito: A

A narradora fala do próprio corpo ("faminto, dentado, cruel"), de ser mulher negra nordestina e de uma história de escravidão no Ceará, com a repetição "dizem e eu ouvi, mas depois também li". A linguagem une corpo, raça e gênero para construir identidade marcada pela violência (A).

A B é errada, pois ela não questiona o pioneirismo cearense, apenas o cita. C e D não aparecem. A E diz paisagem, mas o foco é o corpo.

Dica: em textos literários, ligue os recursos (imagens do corpo, repetição) ao tema social.

Questão 4 · ENEM 2022 · Questão 17média

PALAVRA – As gramáticas classificam as palavras em substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção, pronome, numeral, artigo e preposição. Os poetas classificam as palavras pela alma porque gostam de brincar com elas, e para brincar com elas é preciso ter intimidade primeiro. É a alma da palavra que define, explica, ofende ou elogia, se coloca entre o significante e o significado para dizer o que quer, dar sentimento às coisas, fazer sentido. A palavra nuvem chove. A palavra triste chora. A palavra sono dorme. A palavra tempo passa. A palavra fogo queima. A palavra faca corta. A palavra carro corre. A palavra “palavra” diz. O que quer.

E nunca desdiz depois. As palavras têm corpo e alma,

mas são diferentes das pessoas em vários pontos.

As palavras dizem o que querem, está dito, e pronto.

FALCÃO, A. Pequeno dicionário de palavras ao vento. São Paulo: Salamandra, 2013 (adaptado).

Esse texto, que simula um verbete para a palavra

“palavra’’, constitui-se como um poema porque

  1. A

    tematiza o fazer poético, como em “Os poetas classificam as palavras pela alma”.

  2. B

    utiliza o recurso expressivo da metáfora, como em “As palavras têm corpo e alma”.

  3. C

    valoriza a gramática da língua, como em “substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção”.

  4. D

    estabelece comparações, como em “As palavras têm corpo e alma, mas são diferentes das pessoas”.

  5. E

    apresenta informações pertinentes acerca do conceito de “palavra”, como em “As gramáticas classificam as palavras”.

Ver gabarito e resolução

Gabarito: B

O texto é um "verbete" que vira poema porque usa a linguagem de modo criativo: "A palavra nuvem chove. A palavra triste chora". Dizer que as palavras têm corpo e alma é metáfora.

O recurso expressivo da metáfora faz do texto um poema: B.

A A só cita o assunto, e o tema sozinho não faz um poema. A C e a E são do gênero verbete, e não do poema. A D é tentadora, mas "têm corpo e alma" é metáfora, enquanto a comparação aparece só na parte seguinte.

Dica: o que faz um texto poético é a linguagem figurada e o ritmo.